Ei-lo novamente. SEMPRE PROCURANDO FAZER A DIFERENÇA! diante de, não um desafio, porém… um fato inusitado!
Passar seu aniversário correndo, e bem longe de casa, fora do Brasil!
Pode parecer, para um simples – normal e sedentária -, algo meio estapafúrdio e estarrecedor, entretanto, em se tratando de Fernando Luciano Barros Xavier - esse carioca de 41 anos, nascido na Tijuca e criado em Ramos, pai de três filhos, que, em 1991, por razões do coração, trocou o Rio de Janeiro pelo Ceará e que, em 1995, quando tentou a sua inclusão no Guinness Book, terminou por se transformar no’’ Fernando Pangaré’’ -, tudo super-normal. Isso mesmo.
Sua vida tem sido eivada de situações, fatos e circunstâncias incomuns. E ele está por construir mais uma.
Aos seis anos, desce o morro, para fazer um mandado para sua mãe, e é colhido por um táxi. Mesmo com escoriações, recusa-se a faltar à escola. Notava-se, ali, um espírito diferente.
Dois anos de pois, vê seu pai largar a família, deixando-a na ‘’rua da amargura’’, uma vez não assumindo nenhum compromisso advindo de uma separação conjugal refletida e não néscia. Seu irmão mais velho ele viu quase cair na vida do erro (pequenos delitos).
Aos dez anos, recusa convite do líder da ‘’boca-de-fumo’’ no morro onde morava, em Ramos, para ser ‘’olheiro’’. Abre mão de, se fosse nos dias atuais, digamos, uns R$ 30,00. Muitos de seus colegas de pelada na rua não pensaram assim. Hoje, poucos, pouquíssimos são os que ficaram de pé.
Em 1979, procura o Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro (para o qual, dois anos depois, seria reprovado na admissão ao Segundo Grau), a fim de treinar Ginástica Olímpica, num projeto social. Não deu certo. Saltava o plinto com muita dificuldade.
No ano seguinte, ouve uma propaganda na televisão, dando conta de um evento multi-desportivo, sob organização da Fundação Roberto Marinho. Decide não só participar, todavia, montar uma equipe e “mandar ver’’. Os integrantes: Marinho, China, Carlos Alberto, Alexandre (hoje falecido) e o próprio Fernando. A modalidade? Atletismo. Porque? A prática mais óbvia para jovens adolescentes numa periferia carioca. A equipe não vinga. Insucesso total. No dia da competição, um domingo, no bairro de Deodoro, em um quartel do Exército, dos cinco integrantes, somente Fernando e “China’’ (Paulo Sérgio) comparecem. Uma vez tendo atrasado a largada do evento, Fernando e China - fora o despreparo físico completo e total, uma vez que estavam apenas movido de muito boa vontade e alguns “piques’’ no bairro -, largam, esfomeados e destreinados, para as quase quatro voltas na pista do quartel e não logram chegar ao fim da sua competição. Ambos competiram na prova de 1500 metros rasos.
Surge, ali, em 1980, o embrião do ato de correr, naquele jovem, de quase 14 anos, que viria, vinte e dois anos mais tarde, a se tornar ultramaratonista.
Já em 1982, tomado de catapora, sem qualquer equipamento concernente à Corrida de Rua, faz sua estréia em provas de rua. Corre uma prova de 10 kms, que largou na Avenida Rio Branco e chegou em Copacabana. Colocação? Quem sabe?
Dois anos depois, ajuntando dinheiro de um ‘’bico’’ que fazia, em uma academia, na Freguesia, Ilha do Governador, consegue comprar seu primeiro tênis, um nike azul, modelo Yankee.
No ano seguinte, encara o Serviço Militar, vai pra Marinha e é reprovado no Teste de Aptidão Física, no Centro de Educação Adalberto Nunes (CEFAN), na Avenida Brasil. Pediram-lhe que corresse, no mínimo, 3700 metros em doze minutos. Ele logrou, se tanto, correr uns 3500 metros.
Faz sua estréia em maratona, que passa a ser, até o advento da ultramaratona (portanto, dezessete anos), a sua prova específica.
No ano seguinte, abre mão da vida militar e ingressa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Não lhe foi fácil tomar essa atitude, pois vida militar, para alguém que veio de baixo, sempre significaria possibilidade de ascenção social. Só que, num Maracanã com 110 mil pessoas, ele havia logrado aprovação para uma instituição pública e gratuita.
No próprio 1986, é aproveitado pela Equipe de Corrida Rústica da UFRJ. E nela permanece até que cole grau, o que só termina ocorrendo no início de 1992.
No ano seguinte, com apenas vinte anos, assinala 2’42’’06 na Maratona de Santos/SP, o que, para a época, foi visto, até pelo seu próprio treinador, César Gomes do Couto, como ‘’extrema ousadia’’. É sua melhor marca em maratona, até hoje.
Ele não contou, contudo, com certeza, nessa temporada de UFRJ, fez entre 30 e 40 viagens, ora na qualidade de atleta, ora, na de aluno. Impossível não reconhecer o importantíssimo papel, na sua formação, dessa instituição.
Em 1991, após fazer 2’54 na Maratona do Rio, prestes a dar adeus ao curso de Pedagogia – estava no último semestre, cursando apenas três disciplinas -, vai para Fortaleza a fim de participar do Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ENEP).
Numa determinada quinta-feira, era 17 de julho, decide largar o Campus do Benfica, junto de um ex-colega de curso, agora professor da Universidade Federal de Rondônia, e se manda pra praia. Foi bater na Prainha! Conhece Eunice, hoje sua esposa. Retorna ao Rio de Janeiro e, doze dias depois, retorna, em definitivo, para o Ceará. Está aqui até hoje. Detalhe: havendo uma corrida organizada pelo SESC, ele vem pro Ceará financiado pela UFRJ. Uma viagem só de ida! A passagem de volta ele vende e usa o dinheiro percebido na compra do enxoval atrasado.
Inicia-se em 1991 um jejum forçado de dez anos! Dez anos sem correr maratona. Hibernação na marra.
Em 1994, decide fazer algo diferente! Tentar sua inclusão no Guinness Book! Correria um ano full time, manhã e noite. Atingiu dez mil kms. Nessa perspectiva, em janeiro de 1995, faz uma matéria para o Jornal Nacional, com o repórter Marcos Uchoa. Nasce aí o epíteto “PANGARÉ”, pelo qual, até hoje, sem depreciação – ao contrário – tem sido tratado onde quer que coloque a planta dos seus pés, quer seja para treinar, quer seja para competir. “ Fernando é pangaré, mas não é burro”. Não sabia Uchoa que aquele seu simples trocadilho seria o mote para a adesão inquestionável a um apelido.
O trabalho visando a dita inclusão no Guinness continua em 1995.
No início de 1996, devido a uma pane no Monza Hath 1982 em que estava, emprestado de um primo, na Praça Mauá, não consegue chegar ao Leme, local de uma épica matéria para o Esporte Espetacular, com a então recém-chegada Mariana Becker. Jamais retomou esse espaço global.
Em fevereiro de 1997, decidi ir a Israel concluir “a loucura do Guinness”. Pensou em algo diferente. Sair do Mar Mediterrâneo. Ir até Jerusalém. Correndo. Aluga, junto de um colega de Brasília, que seria seu ‘personal staff’, um Fiat uno, enche-o de biscoito e água e parte de Jerusalém. Larga às três da tarde, mas, quase quatro horas depois, vê-se na contingência do abandono do evento. Seu ‘personal staff’ sumiu! Ficou só! Desidratado. Faminto. Ainda errou o caminho, na entrada de Telaviv! Correu dez kms de graça! Não havia como. A desistência seria o mais conveniente para aquele momento. Com a ajuda de um piedoso judeu - que, ao telefone contata um carioca de Copacabana, amigo seu e há alguns anos em Israel -, consegue retornar a Jerusalém! Missão abortada e uma tristeza na alma. Correra três horas e quarenta e cinco minutos e estava bem, inteiro, com perspectiva de chegar bem em Jerusalém. Seriam 94 kms de percurso.
Por motivos outros, a inclusão no Guinness não acontece, mas ele consegue atingir, no triênio 1994/1997, trinta e seis mil kms.
Em 2001, retorna à maratona, correndo a de São Paulo. Tempo alto. 3’46’30. Era o que faltava. Já em 2002, retoma um calendário de viagens e competições, que, até hoje, tem mantido. 2002, como foi dito anteriormente, represente o ano do debute em provas de 24 horas. Ele faz 149 kms em Salvador/BA e conclui a prova na sétima colocação geral.
A partir daí, outros desafios de 24 horas foram se somando. Hoje, eles já são em número de 12.
Em 2004, fecha com a VARIG uma parceria de descontos aéreos, o que lhe permite inserção fora do Brasil.
Em 2005, a sua primeira é única inserção em provas de 48 horas. E que inserção… Correu mal demais. Somou apenas 136.562 metros, pois foi enfermado com uma infecção braba na garganta. Por pouco, não foi sacado da prova. Era, naquela oportunidade, o único da América do Sul, em meio a 47 renomados ultramaratonistas de todo o mundo. Na cerimônia de premiação dessa prova, é homenageado, por conta do atingimento, em toda sua carreira, até então (um quarto de século) de duzentos mil kms rodados. Recebeu um gigantesco saco com pequenas argolas, típicas para a confecção de colares. Não se sabe se eram em número de 200.000, mas o simbolismo do ato ía nessa direção.
Nesse evento, tem início uma parceria de quase dois anos com a Gerardo Bastos Pneus, que hoje atua, junto ao ultramaratonista, aleatoriamente, sem compromisso fixo.
Esse evento da República Tcheca também marca a única ação conjunta de Pangaré com a Coca-Cola.
Em 2006, por ocasião da Ultramarathon 24 Hours Stein, na Holanda, inicia duas exitosas parcerias, ambas, ainda hoje, frutificando, de pé: * Construtora Marquise e Prefeitura de Fortaleza.
Em 2007, recebe o apoio da PLUNA – Líneas Aéreas Uruguayas, que lhe permite a manutenção da vertente de América do Sul em seu calendário, em moldes idênticos ao da parceria com a VARIG, que vingou até 2006, quando a companhia, sabidamente, fez água. E a estréia dessa parceria não poderia ser melhor. Pangaré conclui na sexta colocação geral (primeiro da equipe do Brasil) a Ultramarathon 24 Horas de San Pedro, na Argentina, melhorando sua marca pessoa na prova. Ele tinha 157.300 metros (Salvador/BA/2004) e correu 161.482 metros,vencendo, inclusive, na oportunidade, o grande campeão argentino, quase intocável, recém-chegado do Mundial de Ultramaratona 24 Horas, na Holanda, Walter Picante López.
E O PRÓXIMO DESAFIO SERÁ MAIS QUE ESPECIAL: ESPECIALÍSSIMO! VENADO TUERTO! ARGENTINA. 25 DE OUTUBRO. LARGADA ÀS 16 HS. ELE VAI COMEMORAR SEUS 42 ANOS CORRENDO. E A FESTA, EM VENADO TUERTO, PROMETE!!!